segunda-feira, 17 de março de 2014

O CÉU DESPENCA


O CÉU DESPENCA

 
chô, chuá
chove no Jaraguá
chove chuva
sem parar
inundando as marginais
imundando quem se atola
chove chuva no Tatuapé
e muito nego deixou o blindado
prá se locomover a pé...
chô, chuá
a cidade não pode pará
bradam aflitos
os capitães da indústria
a massa de formigas laboriosas
está desorientada
tem água na trilha
quem saiu e não chegou
quem foi e não voltou...
a chuva castiga os morros
levou cavaquinho e violão
invadiu a casinha da dona Maria
derrubou a árvore
arrastou cães e crianças
e implacável despenca seu choro
das nuvens ameaçadoras
que choram em convulsão
será que o pranto não passa?
E essa enxurrada que rola e arrasta
ladeira abaixo
passarela de bananas e melancias
trastes e troços
arrancados dos barracões...
chô, chuá
haja algodão
prá enxugar tanta lágrima!

5 comentários:

wcastanheira disse...

Uauauuu um poema interessante, diferente, gostei da irreverência implicita nele e achoq vc merece receber beijinhos e beijinhosssssssssssss

Felisberto Junior disse...

Olá,Boa tarde, Renata,Março até agora está sendo um mês ótimo de chuvas aqui em São Paulo, e o céu ao despencar , nos causam muitos problemas...e pior que, nem sempre são “naturais”. O modelo adotado para o urbanismo paulistano foi e é fruto de opções políticas e econômicas por parte do poder, criando uma lógica que vai expulsando os trabalhadores mais pobres , tal como dona Maria, para regiões mais periféricas e muitas vezes com altos riscos de alagamentos e deslizamentos e mais do que isso, a dependência que a cidade desenvolveu do transporte rodoviário, que acabou por levar à opção por construir vias expressas ao longo das margens dos rios, uma região historicamente conhecida por ser alagadiça, por isso, muito nego deixou o blindado, prá se locomover a pé...tem água na trilha, quem saiu e não chegou, quem foi e não voltou...e haja algodão, pois muitas vidas são perdidas...pois a cidade não pode pará..,não é capitães da indústria e poder?
Obrigado pelo carinho, bela semana,beijos!

Daniel Costa disse...

Renata, o poema retratará o presente, em que usas muito a língua local, das migrações para expressares um situação que julgo presente. Sendo assim é de ver o escrito, como poesia de intervenção social. Creio que os políticos ficam muito mal na fotografia.
Beijos

MARILENE disse...

Renata, as consequências da chuva são conhecidas há tempos e sempre inspiram promessas de campanhas, no sentido de adoção de providências para minimizar/regularizar a situação. Infelizmente, nada concreto e eficaz é realizado.
Mas o poema ficou ótimo. Bjs.

Blue disse...

E aqui chove também,
embora onde precisa chover,
não chove a muitos dias.
Chô, chuá, vamos ter de chorar,
pedir a mãe natureza perdão,
por termos feito tantos estragos!

Beijo