quarta-feira, 9 de abril de 2014

TUDO ME INTERESSA E NADA ME PRENDE



 
Tudo me interessa e nada me prende.

Atendo a tudo sonhando sempre;
fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo,
recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;
mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa,
e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse,
da minha parte ou da parte de com quem falei.


Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti,
pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu;
mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas,
o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra,
ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu
a narrativa que me não recordava ter-lhe feito.


Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
 



Bernardo Guimarães/Livro do Desassossego

5 comentários:

Blue disse...

Mas aí não será tudo passageiro?

Beijo

Mariazita disse...

Foi um prazer enorme vê-la de novo na minha «CASA», minha amiga.
Há muito tempo perdi seu rasto, assim como a algumas outras pessoas, das quais, nem todas estão perdidas - vão aparecendo, aos poucos. A informática tem destas coisas.

Tem razão quando diz que estava habituada à minha prosa, mas não à poesia. De facto eu tinha alguns "rabiscos" escritos faz tempo (anos, nalguns casos...) mas nunca me tinha atrevido a publicar no blog. Até que alguém leu alguma coisa e me incentivou a fazê-lo. E pronto! agora publico um "poema" - se é que assim se lhe pode chamar - no último dia do mês. E ao dia 14 publico o post habitual, de prosa.

Espero vê-la mais vezes.
Eu virei sempre que puder.
Beijinhos, tudo de bom.

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo poema...Espectacular....
Cumprimentos

arjuna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Bernardo Guimarães foi um escritor brasileiro do século XIX. Não é um ortônimo de Fernando Pessoa.