quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

FLORES DO AMOR




FLORES DO AMOR




Sai de cena o frio, entra a primavera.

O sol num riso límpido não tardou

a dar vida e colorido à esfera.

A terra é tatuada de luz e cor.



Na planície azul dos corações

uma nuvem branca se derrama

sobre os rubros botões das emoções,

cingindo de brilhos a densa rama.



Pássaros com asas de serenidade

galgam o mais alto da imensidade

e os desejos de amor vão se elevando.



Nos negros olhos da amplidão, subindo,

raios de luz que a terra vai vestindo,

e a flor do amor no peito fecundando.

Renata Cordeiro





segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PLENITUDE




PLENITUDE


Estar parado no tempo
e mover-se no espaço
estrada sem começo nem fim
deslumbrar-se na volta da curva
à vista a cidade ao longe
despontando do passado
envolta em muralhas ancestrais
pedras e pedras
de suor e quimeras
o deslumbramento em aparição?
No alto da colina ouvimos
um som místico medieval
abrindo uma nova dimensão
sensações à flor da pele
passadas por filtro mágico
inebriante gozo
de tudo sentido vivido
em vibrações cósmicas
Estar a caminho e ser
prestes a entrar na cidade dos sonhos
e a perspectiva em si
é essa gota de tempo concentrada
que tudo contém e invade
mais forte que todas as drogas
extrato de fortuito momento
de inspiração e talvez
plenitude
@ Renata Cordeiro


Frases


sábado, 22 de fevereiro de 2014

ROSA





Rosa, o presente é teu coroamento.
Eras um pálido cálice antes
Tu és, hoje, o infinito concordante
Da minha alma que vai se reerguendo.

Olhando-te, parece que usas terno
Vestido em camadas, feito de luz;
No entanto, cada pétala conduz
E dissolve a veste no instante eterno.


O teu perfume clama o meu nome
Pelo tempo e o imenso espaço vazio.
E o aroma fica no ar como o renome.

Palavras me escapam. Meu corpo lasso,
Minhas memórias todas sentem frio...
Vou por aí, um dia acho um abraço.

Feito após a leitura de um poema de Rainer Maria Rilke, intitulado
O Perfume da Rosa.

@ Renata Cordeiro





sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

*EU FAÇO UMA CARTA DE AMOR*




*EU FAÇO UMA CARTA DE AMOR*



***

Todas as cartas de amor são
Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


(Álvaro de Campos)



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O AMOR




*O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal*




Птицы

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

PARTILHO COM TODOS UM POEMA QUE FIZ AOS 19 ANOS, A PARTIR DE UM VERSO DE FLORBELA ESPANCA* BOM FINAL DE SEMANA.








PARTILHO COM TODOS UM POEMA QUE FIZ AOS 19 ANOS, A PARTIR DE UM VERSO DE FLORBELA ESPANCA* BOM FINAL DE SEMANA.

Mote: “QUE ME SAIBA PERDER... PRA ME ENCONTRAR”
(
Florbela Espanca)
“What is this thing called love? What? Is this thing called love? What is this thing called love? Love.”
(
Cole Porter)
® Renata Cordeiro 1982

Lágrimas verdes a transbordar
Mar, Amor, Amar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Nau etérea a navegar,
Ar, Areia, Arejar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

No azul, sol a brilhar,
Lua, Lume, Luminar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Busca incessante sem findar,
Remar, Remanso, Rematar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Querer, querida, querelar,
Vencer, Vencida, Vacilar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Mel da vida a lambuzar,
Seiva a Sede Saciar.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Pão bendito a fartar,
Suave Seara Semear.
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Céu e mar no horizonte a se abraçar,
Em porto seguro ancorar.
Que me saiba perder... pra te encontrar.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

SONETO



SONETO

Paro no tempo, movo-me no espaço,
Ando e viro na curva de uma estrada
Sem começo, sem fim e sem pousada,
E ouço, na sombra, a fuga dos meus passos.

No chão vermelho, caem do azul lasso
Só lágrimas de tempo concentradas
Que são por filtro mágico passadas,
Gotejando nos múltiplos cansaços.

Amortalha-me o espesso véu da noite,
Estou só e não tenho quem me acoite,
E ninguém pode ouvir o meu lamento.

Corro, respiro, busco uma saída,
Mas me apunhala toda a dor da vida,
E mergulho no sumo esquecimento.

Renata Cordeiro



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OS MEUS OLHOS...





OS MEUS OLHOS....

Os meus olhos teimavam em te ver:
Pois neles se gravara a tua imagem,
Para que não pudesse eu a esquecer,
E fui à tua espera ali na margem...

No coração pulsava este dever:
Esperar-te sozinha na passagem,
Mas se desesperava o meu querer,
Pois os meus olhos viam só miragens...

Então, a alma iludida o cultivou
Num jardim que do tempo o protegeu,
E a flor do sonho ao sol desabrochou...

Aquele amor-perfeito não morreu,
Porém, a alma, que só em ti pensou,
Das esperanças vãs, adoeceu...

Poema de Renata Cordeiro, baseado no verso de Paul Verlaine Attendre sans espérer/Esperar sem esperança.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

OLHOS...


 OLHOS...



                                               Olhos de rubros fogos, infernais,

                                               Olhos que se enfeitiçam, feiticeiros,

                                               Olhos que por instantes flamejais,

                                               Olhos fortes, ferventes, fervilheiros...



                                               Olhos de verde mar, mananciais,

                                               Olhos que se deságuam, aguadeiros,

                                               Olhos que por instantes marejais,

                                               Olhos meigos, marinhos, marinheiros...



                                               Olhos de magnetismos pessoais,

                                               Olhos de paixões súbitas, fatais,

                                               Olhos de amores cegos, verdadeiros...



                                               Olhos que se fitaram, passageiros,

                                               Olhos que se enxergaram por inteiro,

Olhos que não se viram nunca mais...



Renata Cordeiro






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

HAI CAI MESMO


HAI 
  CAI
MESMO

Como é bom girar
Ir entrando em parafuso
Pra cair em si

Renata Cordeiro




sábado, 8 de fevereiro de 2014

SANGUE E MEL



SANGUE E MEL


Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam 
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu, 
por falso respeito humano,
não dei.


Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado. 
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.


Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder. 


Clarice Lispector

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FALTA




Falta amor
Falta confiança
Falta coragem
Falta vontade.
Falta quem olhe 
para dentro e não para fora.